“Ai não...!”.
O Amadeu nasceu a 2 de dezembro de 1997. A vida não pediu licença, entrou logo a pés juntos.
O Amadeu nasceu a 2 de dezembro de 1997. A vida não pediu licença, entrou logo a pés juntos. Antes dos cinco meses, os pais souberam que era cego. Procuram respostas, esperam milagres e seguem caminho. Cresceu entre os cuidados da mãe e do pai e a urgência de explorar o mundo. Exigente, de humor afiado, sem paciência para rodeios. A escola foi um campo de batalha onde aprendeu a navegar num mundo que não estava feito para si. Dos corredores da Lagoinha ao Colégio de Lamas, até à escola Rodrigues de Freitas, no Porto, foi o único aluno cego da turma. Não lhe faltou inteligência para outras áreas, mas a matemática “era o que gostava mais!”. Amadeu considera os números como exatos, certeiros, sem margem para segundas interpretações. As notas, nem sempre: “fiz o cálculo mental certo, mas o que interessava era o caminho até lá chegar”. Contabilidade e Administração no ISCAP foi uma escolha natural. Terminou o curso em 2021 com média de 15. No exame da Ordem dos Contabilistas, reprovou uma vez, passou à segunda. No mesmo dia em que recebeu a boa notícia, a mãe foi hospitalizada. A vida tem destas ironias.
A natação adaptada foi outra história. Começou aos sete anos, subiu ao pódio muitas vezes, representou Portugal. Mas quando a pressão deixou de compensar o prazer, fechou a porta e seguiu caminho sem hesitação. Na Casa dos Choupos encontrou um lugar com outros estímulos. Improvisação musical, yoga, cozinha e canto. Gosta das oficinas porque não sente a pressão de ter que fazer tudo bem. E também não gosta de multidões.
Epilepsia? Sim. Uma ausência na piscina, outra em casa, uma crise na faculdade. Autismo? Também. Diagnóstico tardio, nível 1. Como quem diz: precisa de apoio, mas sabe bem o que quer. Explica a rigidez nos horários, a aversão a surpresas e a impaciência com ordens. Não gosta que lhe digam como fazer as coisas, mas também não gosta de errar. Se tiver de mudar de opinião, só muda “se valer mesmo a pena”, diz com ironia bem medida. O emprego ainda não apareceu, mas não desiste. Amadeu é feito de luta e teimosia, mas também de um coração enorme. Ama os pais, mas discute com eles. Gosta de ter razão, mas quer aprender. É exigente mas generoso.
A sua playlist tem no topo: Time After Time (Cyndi Lauper)
“(...) If you're lost you can look and you will find me, time after time”
e_ Um Dia de Domingo (Gal Costa)
_“(...) Faz de conta que ainda é cedo, Tudo vai ficar por conta da emoção, Faz de conta
que ainda é cedo, E deixar falar a voz do coração”
…_
Gosta de saber o que vai ouvir e esta sensação só é comparável “ao abraço de uma pessoa em quem se confia_”. E se isto parece uma descrição muito séria, é porque ainda não o ouviram dizer: “Ai não...!”.


