Como vai a tua vida, Vera?
A Vera tem 38 anos. A sua diversidade funcional é apenas uma das muitas formas de estar que se cruzam neste espaço vibrante e cheio de possibilidades.
“Adoro ver o mar, sentir a areia quente, gostava de viver perto do mar, onde pudesse respirar fundo e esquecer as preocupações”. Vera tem 38 anos. Desde 2019 que frequenta a Casa dos Choupos. Gosta de pintar, de ouvir música, de passear. Sente-se bem entre “amigos verdadeiros”. Desde que se lembra de si, foi a mãe a segurar o mundo. Não conheceu o pai. A vida ficou mais difícil após a morte dos avós. A relação com a família nem sempre foi fácil. Vera estava sempre a ter que provar que era capaz. A insegurança ganhou terreno e o desejo de independência ficou mais longe de se concretizar. Conheceu a face mais sombria de uma relação conjugal, o abuso e a violência. Teve a vida por um fio. Denunciou o agressor e reivindicou o direito de viver em paz e segurança. A justiça seguiu o seu rumo e Vera encontrou forças para recomeçar, mais uma vez. A demência da mãe provocou novos desafios, noites mal dormidas e uma “paciência de santa”, mas sem os milagres correspondentes. Cuidar da mãe não é apenas mais uma tarefa, obriga-a a estar sempre alerta. Vera aprendeu a ler-lhe os gestos, a antecipar as necessidades, a compreender os silêncios. Há dias em que sente que a sua identidade se dissolve entre medicações, horários e divagações. Não desiste. O cuidado parece ser o seu jeito de estar no mundo. “Gostava de ter uma casa com jardim para plantar flores com cheirinhos de paz, e de saber mais sobre cuidados dos animais e até trabalhar numa clínica veterinária, mas tudo fica distante para mim”. Tendo sobrevivido à tragédia da violência doméstica, Vera é um movimento contínuo de reconstrução, com a vulnerabilidade de (ainda) acreditar na história de encantar “e viveram felizes para sempre”.


