Como vai a tua vida, Bruno?
O Bruno tem 30 anos. Transforma-se quando fala no palco.
O Bruno foi-se moldando à vida em Santa Maria da Feira. Fez 30 anos. A comunicação acontece de forma particular. As palavras parecem esconder-se. Tem um tempo próprio. Falar de si é difícil. Mas isso pouco importa. Vai partilhando memórias doces, os pacotes de leite com chocolate, as tardes a jogar UNO, as atividades no ATL a que chamava “hotel”, as férias de verão, as idas à piscina e à praia. E aquela vez em que foi à Bracalândia e andou na montanha russa. O Bruno não se assusta com alturas, só com injustiças. Os dias nem sempre foram fáceis. Sobrevive ao bullying e à negligência. Cresceu_ invisível_ e seguiu sozinho. De vez em quando revisita a memória do afeto familiar, “lembro-me do cheiro das batatas fritas da minha mãe”.
Entre as cenas _da vida, encontrou um lugar no teatro. Ali podia ser tudo, mosca, lenhador, padre, monstro com asas, figurante ou viajante medieval. O Bruno transforma-se quando fala no palco, “em cena pareço outro (...) já participei no Auto da Barca do Inferno, Sonho de uma Noite de Verão, Bodas de Sangue, O Auto da Índia, e outras para crianças_”. Frequenta também as oficinas da Casa. Prefere improvisação musical, dança e cozinha. E nada combinaria melhor com o seu sonho: representar o Dragon Ball, “ser o Goku”. Depois das oficinas, liga o disco externo em que guarda os filmes (imaginamo-lo a lançar bolas de energia, a voar e gritar bem alto, a fazer um _Kamehameha; _para quem não conhece, é o icónico movimento desta manga japonesa, um gesto de braço com velocidade, força, convicção e luz azul).


