O ateliê de mecânica de Acácio de Jesus
Antes das oito, com a oficina ainda fechada, Acácio de Jesus organiza os automóveis, consulta ordens de trabalho e prepara o material. Não quer uma oficina onde a desarrumação seja confundida com trabalho. “Quero isto como um ateliê de mecânica.”
Na entrada do pavilhão, uma corrente separa a receção da zona de trabalho. Acácio não gosta particularmente dela. Mantém-na porque a lei o obriga, não porque pretenda esconder o que acontece do outro lado. Se um cliente quiser perceber o que está a ser feito, mostra-lhe o automóvel, as peças e o problema encontrado. Antes de começar um trabalho, apresenta um orçamento. “Não gosto que o cliente chegue aqui e seja surpreendido com uma fatura que não estava nada à espera”. Mesmo um carro que entra apenas por causa de um ruído, não sai sem que sejam verificados o óleo, o líquido de refrigeração e a pressão dos pneus, incluindo a do pneu suplente. O cliente não precisa de pedir, “são cinco minutos que podem evitar uma avaria séria”.
Aos 57 anos, Acácio dirige uma empresa jovem numa profissão que conhece há quatro décadas. Trouxe consigo anos de experiência numa empresa do mesmo ramo e uma reputação construída com muito trabalho. A rutura aconteceu depois de um período difícil. Décadas de movimentos repetitivos provocaram-lhe uma epicondilite e várias tendinites. Chegou a perder parte dos movimentos de uma mão e esteve cerca de um ano e meio de baixa profissional. Reconhece que descurou a saúde porque “havia sempre mais um carro para reparar”. Quando ficou desempregado, aos 55 anos, houve quem lhe sugerisse que esperasse pela pré-reforma. Acácio recusou. “Como é que eu podia parar? Gosto muito daquilo que faço”. A baixa médica prolongada, seguida de um despedimento, foi o gatilho necessário para pensar em constituir a empresa e voltar ao ativo. Uma pessoa amiga encaminhou-o para a ALPE. Com o acompanhamento de Adélia Antunes, estruturou o plano de negócio e preparou a candidatura ao IEFP. A antecipação das prestações de desemprego ajudou a financiar o investimento inicial. “Se não fosse a ALPE, provavelmente não teria o sucesso que estou a ter.”
Preparar o espaço de um antigo ginásio para instalar uma oficina não foi fácil. A mulher, os filhos e alguns amigos passaram fins de semana a fazer obras, pintar paredes e recuperar o interior. Foi necessário comprar praticamente tudo: máquinas, ferramentas, equipamentos de diagnóstico, software e material para sistemas de ar condicionado, segurança e gestão de resíduos. A empresa nasceu como sociedade unipessoal, mas foi construída por muitas mãos.
A frontalidade faz parte da sua maneira de estar. Acácio reconhece que nem sempre mede as palavras e que, por vezes, “tenho o coração perto da boca.” A expressão aproxima-o do avô, uma das pessoas mais importantes da sua vida. Era um homem que não sabia ler nem escrever, mas a quem Acácio atribui uma grande sabedoria prática. Foi ele quem lhe deixou uma espécie de regra para a vida: “mantém-te sempre fiel aos teus princípios, no futuro isso vai trazer-te alegrias.”
Tudo o que se combina naquela oficina é, segundo diz, para cumprir. É por isso que não gosta de ver a oficina demasiado cheia. Um pavilhão repleto de automóveis pode impressionar quem entra, mas não é necessariamente sinal de sucesso. “Se está cheia, é porque os carros não saem.” Muitos veículos parados significam dificuldades de circulação, atrasos e clientes à espera. Esta distinção entre acumular e fazer fluir atravessa a sua ideia de negócio. Uma empresa não cresce por ter cada vez mais trabalho amontoado. Cresce quando encontra pessoas, espaço e organização para o realizar bem.
Quando abriu as portas, estava sozinho. Atendia clientes, reparava viaturas, encomendava peças, fazia orçamentos, experimentava carros e tratava da faturação. Para testar um automóvel tinha de fechar a oficina. Chegava antes das oito e saía muitas vezes depois das oito. A procura aumentou e os tempos de espera cresceram. Continuar sozinho poderia comprometer a qualidade do serviço. Contratou um antigo colega que conhecia há 25 anos. A ALPE voltou a acompanhá-lo neste processo.
Durante o primeiro ano, Acácio levava frequentemente para casa uma mochila cheia de papéis para trabalhar à noite. Reparar automóveis é apenas uma parte do negócio. A outra é preparar orçamentos, pedir material, emitir faturas, acompanhar pagamentos e organizar a informação dos clientes. O filho mais velho começou por ajudar, informalmente. Mais tarde, com os estudos terminados, foi contratado. Hoje acompanha a área administrativa, as compras, os orçamentos, a faturação e também é e ele que recebe os clientes. Os conhecimentos de programação são também úteis nos sistemas eletrónicos e nas ferramentas de diagnóstico automóvel. Quando uma máquina identifica uma avaria, consegue pesquisar informação e ajudar a transformar códigos e dados em possíveis soluções técnicas.
A relação com os clientes assenta na confiança. Se um serviço previsto para quatro horas demora três, são cobradas três. Já passaram pela oficina centenas de clientes. Começam também a chegar empresas da região e viaturas pertencentes a frotas profissionais. “A melhor publicidade é o boca-a-boca.” O crescimento traz novas dificuldades. Acácio acredita que precisará de contratar mais pessoas e admite que, no futuro, talvez tenha de procurar outro pavilhão. Neste momento, reconhece que não tem capacidade para receber jovens estagiários. O volume de trabalho é demasiado elevado e uma pessoa em formação exige tempo e acompanhamento. Não quer aceitar alguém apenas para limpar o chão ou executar tarefas que nada ensinam. “Eles vêm para aprender, neste momento, não tenho tempo para os ensinar.” Espera poder fazê-lo quando a equipa estiver mais estruturada. Até lá, prefere dizer que não.
Aos 57 anos, Acácio de Jesus não está a preparar a saída da vida profissional. Pelo contrário, está finalmente a construir o seu caminho como uma extensão da sua maneira de estar: organizada, frontal, atenta aos pequenos gestos. “Os clientes entram como clientes e muitos acabam tratados como amigos, é por isso que atendo sempre o telefone, mesmo durante as férias, sabe-se lá se uma pessoa pode estar enrascada no meio de uma serra? Mesmo à distância, talvez seja possível orientá-la”.
A empresa é recente mas começou com quarenta anos de experiência, uma reputação construída a pulso e uma rede de pessoas que ajudaram a transformar um fim inesperado num novo começo.


